Embora o assunto esteja em pauta nos últimos tempos e a própria questão do oriente médio alimente incontáveis discussões, sempre me senti um tanto constrangido por acreditar que meu conhecimento político sobre a situação é demasiadamente pobre para uma discussão qualitativa.
O único ponto que sempre defendi foi que violência não justifica violência (referência à estratégia do uso de força bélica em larga escala, promovido por Israel, em resposta aos ataques de foguetes do Hezbollah) e que os únicos grandes perdedores são os civis de ambos os lados, recuados e amedrontados em meio a uma chuva de Katiushas e disparos de tanques.
Na tentativa de entender melhor as conseqüências políticas e sociais do caos impetrado por uma guerra que já tem perdedores, segue:
Entre mortos e feridos
As preocupações do Hezbolá não podem ser reduzidas em termos convencionais como um balanço dos mortos de um lado e do outro. O Hezbolá se integrou profundamente na sociedade libanesa, criou um Estado dentro do Estado, com uma rede de atendimento social extensa. Mesmo que Israel consiga driblar os soldados do Hezbolá, Nasrallah permanecerá sendo o político mais poderoso do país, em parte porque o caos das últimas semanas deixou clara a fraqueza do governo. A maioria dos analistas libaneses com quem conversei acreditam que o Hezbolá, do seu jeito, sai particularmente mais forte deste conflito.
De Cuba para o Líbano, Jon Lee Anderson está in loco onde há crise – e escreve para a New Yorker.
Políticos sunitas e cristãos, publicamente, se dizem solidários ao Hezbolá xiita, que rotineiramente se declara o ‘movimento de resistência’ libanês. Mas as linhas sectárias foram afetadas pela crise. Estima-se que a população esteja dividida entre 35% de cristãos, 35% de xiitas, 25% de sunitas e 5% de druzos. Os postos do governo estão alocados a grupos distintos – o primeiro-ministro é sempre sunita, por exemplo. ‘Uma guerra civil está na cabeça de todo mundo, mas esta é justamente a coisa sobre a qual ninguém quer falar’, me contou durante o jantar um influente executivo de origem cristã-maronita.
O cessar-fogo começa segunda-feira de manhã. Aí virá a disputa de argumentos e tanto Israel quanto Hezbolá tentarão se declarar vencedores da guerra. Será uma disputa fajuta – Israel perdeu. Pela estratégia da ofensiva militar violenta e intensa que decidiu seguir, não conseguiu o objetivo de neutralizar o Hezbolá.
Um dos que concordam com isto é Jamil Mroue, um jornalista secular de origem xiita, editor do principal jornal libanês de língua inglesa, o Daily Star.
Desde o Onze de Setembro, há uma esperança nos EUA e em Israel de que uma classe média silenciosa está apenas esperando para herdar as ruínas de um país qualquer que eles estão pondo abaixo. Eles não percebem que se aniquilam o Líbano e Nasrallah sai do esconderijo e recebe um microfone para fazer um discurso, ele derruba governos. Ele saiu extremamente fortalecido disto. Israel e EUA ainda estão obcecados com a destruição de infra-estrutura. Mas se você faz isso com o Hezbolá, você apenas aumenta o que pretende destruir. Se eu quero viver sob o Hezbolá? Não, não quero. Mas os mesmos erros cometidos pelos norte-americanos no Iraque são os erros que estão cometendo aqui. Você não se livra de Nasrallah destruindo suas armas. Você se livra dele se criar uma sociedade sustentável.
Um Plano Marshall, enfim. Aquilo que deveria ter sido feito no Afeganistão quatro anos atrás, bem antes de se optar por uma invasão do Iraque. (Pedro Dória)
Monday, August 14, 2006
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1 comment:
A guerra é, em qualquer circunstância, mas principalmente uma que atinge indiscriminadamente civis, inclusive crianças, um ato de barbárie; repugnável em qualquer circunstância. O ódio irracional implantado na população é triste, algo q perdura por gerações, em um ciclo interminável.
O combate a tal ato pode vir do amor transmitido por um pai, com esperança q o filho viva o q há de bom na vida, e ache o q é bonito no ser humano.
Pedro, meu filho...
Vinicius de Moraes
Como eu nunca lutei para deixar-te nada além do amanhã indispensável: um quintal de terra verde onde corra, quem sabe, um córrego pensativo; e nessa terra, um teto simples onde possas ocultar a terrível herança que te deixou teu pai apaixonado - a insensatez de um coração constantemente apaixonado.
E porque te fiz com o meu sêmen homem entre os homens, e te quisera para sempre escravo do dever de zelar por esse alqueire, não porque seja meu, mas porque foi plantado com os frutos da minha mais dolorosa poesia.
Da mesma forma que eu, muitas noite, me debrucei sobre o teu berço e verti sobre teu pequenino corpo adormecido as minhas mais indefesas lágrimas de amor, e pedi a todas as divindades que cravassem na minha carne as farpas feitas para a tua.
E porque vivemos tanto tempo juntos e tanto tempo separados, e o que o convívio criou nunca a ausência pôde destruir.
Assim como eu creio em ti porque nasceste do amor e cresceste no âmago de mim como uma árvore dentro de outra, e te alimentaste de minhas vísceras, e ao te fazeres homem rompeste meu alburno e estiraste os braços para um futuro em que acreditei acima de tudo.
E sendo que reconheço nos teus pés os pés do menino que eu fui um dia, em frente ao mar; e na aspereza de tuas plantas as grandes pedras que grimpei e os altos troncos que subi; em tuas palmas as queimaduras do Infinito que procurei como um louco tocar.
Porque tua barba vem da minha barba, e o teu sexo do meu sexo, e há em ti a semente da morte criada por minha vida.
E minha vida, mais que ser um templo, é uma caverna interminável, em cujo recesso esconde-se um tesouro que me foi legado por meu pai, mas cujo esconderijo eu nunca encontrei, e cuja descoberta ora te peço.
Como as amplas estradas da mocidade se transformaram nestas estreitas veredas da madureza, e o Sol que se põe atrás de mim alonga a minha sombra como uma seta em direção ao tenebroso Norte.
E a Morte me espera em algum lugar oculta, e eu não quero ter medo de ir ao seu inesperado encontro.
Por isso que eu chorei tantas lágrimas para que não precisasse chorar, sem saber que criava um mar de pranto em cujos vórtices te haverias também de perder.
E amordacei minha boca para que não gritasses e ceguei meus olhos para que não visses; e quanto mais amordaçado, mais gritavas; e quanto mais cego, mais vias.
Porque a poesia foi para mim uma mulher cruel em cujos braços me abandonei sem remissão, sem sequer pedir perdão a todas as mulheres que por ela abandonei.
E assim como sei que toda a minha vida foi uma luta para que ninguém tivesse mais que lutar:
Assim é o canto que te quero cantar, Pedro meu filho...
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