Imensurável seria a palavra mais exata para definir a contribuição de Shakespeare para o entendimento de uma campanha política, bem como para uma compreensão da essência dos homens e das relações humanas como um todo. Shakespeare representa a cada um de nós em seus personagens, e nos leva ao mesmo tempo a continuas e intrigantes reflexões, como: vestiremos o tempo todo máscaras na encenação dos capítulos do nosso cotidiano? Pois se os políticos nos vendem seus personagens, nós estamos do outro lado, nas salas de nossas casas, assistindo pela televisão e optando por aqueles com os que nos identificamos de alguma maneira, e tudo se torna mais assustador ainda, pois passamos a fazer parte daquela obra tragicômica.
Para fazer a presente análise, nos obrigamos a assistir e debater o programa eleitoral gratuito. Devo admitir que somente razões como esta nos motivam a acompanhar alguns dos programas do começo ao fim (com a consciência dizendo a todo instante: por favor, desligue este aparelho.) O interessante nesta “tortura” foi analisar, após as aulas nas quais minuciosamente discutíamos Ricardo III, os elementos de teatro presentes nos programas: cenários, roteiros e verdadeiros personagens com seus discursos. Uma diferença gritante entre os partidos que possuem grandes publicitários nos bastidores de sua campanha; diferença de texto, cenário e postura. A televisão ainda corrige as faces e feições de seus personagens, transformando suas máscaras em “cútis perfeitos”, de candidatos que parecem não envelhecer nunca. Todos estes são elementos para vender ao povo seus representantes no Congresso Nacional.
Além dos elementos visuais e de linguagem, podemos analisar a questão do poder, ponto central da peça de Shakespeare. Analisar o fascínio que este exerce sobre as pessoas, a luta, a perda de limites e absentismo das questões éticas. Em Ricardo III e na atualidade podemos verificar através dos tempos o poder transformando as pessoas, e que ninguém, numa visão talvez pessimista, talvez realista, esta livre de ser corruptível quando se vê num cargo de alto escalão, imerso ao mundo dos poderosos; no “Grande Mecanismo”. Acredita-se que o próprio Shakespeare em Ricardo III foi tendencioso para o lado da família Tudor que se encontrava no poder da Inglaterra daquele período propositalmente, visando obter uma série de benefícios por conta disso.
Ricardo III é transformado em um verdadeiro monstro, vai contra tudo e contra todos até alcançar o seu objetivo; o reinado. Comete traições, assassinatos, mentiras, calúnias, entre tantas outras atitudes que acabam tornando-o um personagem repudiável. Quando chega ao posto almejado e conquistado através de tantas artimanhas e trapaças, não se sente satisfeito, pois a vontade e todo aquele desejo pela conquista de coisas quase impossíveis era o que o movia. Acaba sozinho, traído, arruinado, sem amigos, sem família, vazio em seu dilema. Quando conversa com o público mostra sua outra face e por momentos ao menos parece agir e falar com sinceridade. (E nossos políticos, como se comportarão em suas vidas privadas?)
O que assusta, particularmente a mim, é pensar quantos “Ricardos III” tivemos ao longo da história da humanidade, onde os fins justificam os meios e as páginas da história da humanidade, e de famílias são manchadas por ditadores como Hitler, Mussolini, Vargas, Perón, Pinochet, Chávez, entre tantos outros. E porque não incluir Bush nesta lista? Sábio também foi Spielberg ao desenvolver “Pink e Cérebro”, uma paródia da realidade daqueles que “querem dominar o mundo”.
Como citado anteriormente, nota-se nas campanhas políticas como transmite Shakespeare em sua obra o uso de recursos teatrais, representações sem autenticidade, ou seja, a falsidade. Não conseguimos identificar um discurso sequer que passasse integridade em meio a tantos e tantas promessas. Podemos recorrer também a cena em que Ricardo III veste um de seus personagens para conquistar a aprovação do povo; nota-se sua ironia e hipocrisia na investida de difamar os verdadeiros herdeiros, ao mesmo tempo, buscando apoio em um elemento com o qual pudesse atestar sua essência “boa” junto ao povo. A religião era a melhor arma para isto naquele momento. Fazendo o paralelo com os políticos atuais, cansamos de ver as cenas com criancinhas e idosos, e as narrativas de histórias de vidas humildes, de pessoas que batalharam e merecem ocupar aquele cargo. Quanto maior a aproximação com a história do povo, melhor. A identificação deve começar por ai. São todos os candidatos pessoas humildes que estão na luta pelo poder para defender os direitos do povo.
A peça acaba de forma trágica, como acabaram também de forma trágica histórias como as de Hitler e Collor, citados em aula. Na luta onde os fins justificam os meios, o poder carece de uma essência ética, e de boas intenções. Assim é em Shakespeare, assim é na vida real, a diferença é que nós podemos interferir na história, porém não temos o poder de escolher o gênero da nossa obra.
Tuesday, September 19, 2006
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2 comments:
Muito bom!
Skakespeare & Fucking Politicos... Gracas ao bom Deus fiquei livre das eleicoes, estando fora do Brasil. Fiquei muito feliz com isso, politicos nao mudam em absolutamente nada as nossas vidas. Beijao! ... Jackson Sarda... www.trabalhandoneuroses.blogger.com.br
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